quarta-feira, 29 de abril de 2015

Arcebispo foi assinado quando presidia santa missa*


No dia 23 de maio de 2015, haverá a cerimônia de beatificação de Dom Oscar Romero, antigo arcebispo de El Salvador, que será presidida pelo cardeal Angelo Amato, prefeito da congregação para as causas dos santos (Santa Sé).
O Papa Francisco autorizou no dia 03 de fevereiro deste ano a publicação do decreto que reconhece o martírio de Dom Oscar Romero, que foi assinado no dia 24 de março de 1980, Domingo de Ramos, por um disparo de um atirador do exército salvadorenho, enquanto celebrava uma missa na capela do hospital da Divina Providência, na Colônia Miramonte, em San Salvador, capital salvadorenha. Neste decreto, Francisco também reconheceu o martírio de dois franciscanos polacos, Michele Tomaszek e Sbigneo Strzalkowski, e do sarcerdote italiano Alessandro Dordi, mortos no Peru, em 1991, pelo grupo de guerrilha ‘Sendero Luminoso’.

Breve histórico de Dom Oscar Romero
Oscar Armulfo Romero nasceu em 15 de agosto de 1917, em Ciudad Barrios, em El Salvador. Foi ordenado padre aos 25 anos e bispo aos 53 anos. Retornou a El Salvador, na função de pároco. Era um sacerdote generoso e atuante: visitava os doentes, lecionava religião nas escolas, foi capelão do presídio, os pobres e carentes faziam fila na porta de sua casa paroquial, pedindo e recebendo ajuda. Durante 26 anos, padre Oscar Romero conheceu a miséria profunda que assolava seu pequeno país.
Nomeado em 1977 arcebispo da capital, San Salvador, teve uma grande mudança de visão ao conhecer de perto os sofrimentos do povo e das pessoas que lutavam em defesa dos direitos humanos. Passou assim a denunciar corajosamente, em suas homilias dominicais, a repressão do regime militar e as atrocidades cometidas pelos esquadrões da morte, manifestando publicamente sua solidariedade com as vitimas da violência política.
Na homilia de 23 de março, o bispo se dirige explicitamente aos homens do Exército, da Guarda Nacional e da Polícia e afirma: “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral. Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cessem a repressão!” estas foram as últimas palavras registradas do bispo ao país.
No dia 24 de março de 1980, Dom Romero foi fuzilado, em meio aos doentes de câncer e enfermos, enquanto celebrava uma missa na capela do Hospital da Divina Providência, na capital de El Salvador, por um atirador de elite do exército salvadorenho, treinado na Escola das Américas. Estava em plena Eucaristia pedido “que este Corpo e este Sangue nos alimentem para entregarmos também o nosso corpo...” quando caiu baleado, detrás do altar, aos pés do grande Crucifixo.

Sua morte provocou uma onda de protestos em todo o mundo e pressões internacionais por reformas em El Salvador. Mártir da Igreja pela Justiça, Romero é considerado “santo” pelo povo salvadorenho e pelas comunidades eclesiais de base de toda a América Latina que atuam ao lado dos mais desfavorecidos.

* Artigo publicado no jornal da Arquidiocese de Florianópolis edição de maio de 2015.
"Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim
 decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar,
 desistir ou lutar; porque descobri, no
 caminho incerto da vida, que o mais 
importante é o decidir".

Cora Coralina


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Por uma Igreja da porta para fora
Fernando Anísio Batista*

A Igreja Católica vive um momento muito significativo em sua história. As atitudes do Papa Francisco sugerem que a Igreja se abra para dialogar com a sociedade. Em momento de crise mundial o esperado das instituições é justamente o contrário: fechar-se e proteger-se. No entanto, o Papa Francisco como um grande líder mundial está promovendo a cultura do encontro, ao invés da cultura do protecionismo e do isolamento.
Na Exortação Apostólica Evangelli Gaudium o Papa convida para vivência de uma Igreja em saída: “saímos, saímos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49).
A Igreja do Brasil tem atendido ao convite do santo padre e a Campanha da Fraternidade deste ano lança o desafio de refletir sobre a relação entre a Igreja e a sociedade, no sentido de perceber de que forma a Igreja influencia e é influenciada pela sociedade, uma vez que é parte integrante dela. Esse tema já propõe a quebra de um paradigma do senso comum que diz que a Igreja não deve se envolver em assuntos sociais ou políticos, que sua missão é meramente a evangelização. Esse paradigma retém uma visão da propagação do evangelho afastado do mundo que vivemos, onde estabelece uma relação unilateral entre a pessoa e Deus, esquecendo-se da relação em comunidade e em sociedade, elementos que formam os três âmbitos da ação evangelizadora (pessoa, comunidade e sociedade).
O anúncio do evangelho da porta para fora da Igreja não é tarefa fácil e muitas vezes desperta espiritualidade de conflito, muito própria daqueles/as que desejam arduamente torna-se discípulos/as e missionários/as de Jesus. Viver essa espiritualidade significa a vivência profética do anuncio da Boa Nova, mas também a denuncia quando há injustiça.

Hoje na Igreja da Arquidiocesana há muitas pessoas, movimentos e pastorais que vivenciam essa experiência de viver a Igreja também da porta para fora, basta conhecer todo trabalho que é realizado nas periferias, nos hospitais, presídios, com moradores de rua, nos conselhos paritários, com dependentes químicos. Mas ainda há um chamado! Não podemos nos acomodar com o que já existe. Há muito a ser feito e somente as pessoas de boa vontade contribuirão com um mundo mais justo e solidário.

Artigo publicado no Jornal da Arquidiocese edição Abril de 2015,

terça-feira, 10 de março de 2015

Migrantes e refugiados encontram apoio na Arquidiocese de Florianópolis

Foto de: Pastoral do Migrante
Casal de migrantes
Casal de migrantes recebe atendimento da Pastoral do Migrante de Florianópolis (SC).

O Estado de Santa Catarina, em especial a capital Florianópolis, registrou em 2014 aumento de refugiados da Síria, haitianos e muitos migrantes dos países latino-americanos, em busca de trabalho e acesso aos serviços públicos básicos.
Para atender melhor esta população, a Arquidiocese de Florianópolis criou há quase um ano um Grupo de Apoio aos Migrantes e Refugiados que congrega mais de 15 instituições, atendendo demandas específicas, como o ensino da língua portuguesa para estrangeiros.
Fernando Anísio Batista, secretário executivo da Ação Social Arquidiocesana e cientista político, explicou ao portal A12 a real condição dos migrantes, a atuação do Grupo de Apoio e a falta de políticas públicas que ofereçam “resultado satisfatório” na região. Confira: 
A12 - Como é medido o crescimento da população migrante em Florianópolis? Existem dados oficiais?
Fernando Anísio Batista - Não existem cadastros oficiais da chegada destes migrantes. O que existe e é muito perceptível é o aumento da procura espontânea pelas instituições que atendem essas pessoas, bem como aos órgãos municipais. O significativo aumento da presença dos imigrantes é reflexo de um novo ciclo migratório presente no mundo e que tem o Brasil como um dos seus destinos, considerando a relevante posição econômica do país (quinta maior economia mundial).
A12 - Por que esta região do Brasil tem sido tão amplamente escolhida pelos migrantes? De quais origens?
Foto de: Reprodução/ UFFS
Haitianos em Universidade de SC
A Universidade Federal da Fronteira do Sul oferece ensino 
superior a 39 imigrantes haitianos por meio do programa 
ProHaiti. 
Fernando Anísio Batista - A região sul é um dos destinos escolhidos pelos migrantes de diversos países, principalmente por suas características econômicas. Em especial, Santa Catarina ocupa relevantes posições no cenário industrial brasileiro, com grande potencial no setor têxtil, metal-mecânica, pecuária e extrativista (minérios). Uma das grandes buscas dos migrantes é por oportunidades de empregos e o Estado de Santa Catarina tem baixos índices de desempregos e grande procura por mão de obra primária, principalmente na construção civil e nos frigoríficos, onde estes migrantes têm se colocado profissionalmente.
Temos a presença de muitos sul-americanos: argentinos, uruguaios, bolivianos. Recentemente, aumentou significativamente a presença de haitianos e de ganeses, bem como de sírios, mas em quantidade menor que os de outras nacionalidades.
A12 - Como funciona o Grupo de Apoio aos Migrantes e Refugiados? Em que segmento o Grupo mais atua (atendimento emergencial dos atendidos ou na cobrança de responsabilidades dos órgãos públicos)?
Fernando Anísio Batista - O grupo de apoio surgiu de forma espontânea a partir da necessidade de uma atuação mais organizada na assistência aos imigrantes e refugiados presentes em Florianópolis. Inicialmente foi realizado uma pequena reunião de articulação destas entidades que foi se ampliando conforme foi se tornando mais conhecido. Atualmente, o grupo de apoio realiza reuniões semanais, mas organizou grupos de trabalho que se encontram com mais regularidade para atender assuntos específicos.
Como o atendimento emergencial é realizado diretamente pelas entidades, o grupo de apoio atua mais como um espaço de articulação social política, com o objetivo de fortalecer o trabalho de cada instituição que o congrega, bem como de ampliar a rede de atendimento (público e privada) aos migrantes e refugiados.
A12 - Os migrantes e refugiados têm conseguido se instalar e permanecer na cidade? Onde e como?
Fernando Anísio Batista - Quando chegam em Florianópolis e em outras cidades do Estado, geralmente já têm contato com alguém que dá o apoio nos primeiros dias. Buscam emprego em empresas que têm se colocado à disposição para atendê-los e aos poucos vão legalizando sua situação. Existem muitas empresas pré-dispostas a empregar migrantes, principalmente os haitianos.
Os locais de moradia são os mais diversos, no geral, são pequenos imóveis divididos para vários imigrantes. Hoje em Florianópolis e em Santa Catarina não existe nenhum centro de atendimento aos imigrantes que possa suprir de forma momentânea a necessidade de moradia. 
A12 - Quais são as ações ou políticas que melhor apresentam resultados?
Fernando Anísio Batista - Existem poucas políticas voltadas para o atendimento direto aos imigrantes. Geralmente as políticas de atendimento a população brasileira são as mesmas que beneficiam os imigrantes. Neste momento, não é possível mencionar alguma que dê um resultado satisfatório, por não existir alguma com um atendimento específico a essa realidade. O que existe em Florianópolis e em outras partes do país é um esforço extraordinário de pessoas e entidades que buscam de forma solidária atender essa nova realidade, buscando olhá-los como uma situação excepcional a partir de suas necessidades que são as mais variadas possíveis: casa, trabalho, documentação, acolhimento, dialeto etc.



Entrevista publicada no portal A12 no dia 09/03/2014, no seguinte endereço:
http://www.a12.com/noticias/detalhes/migrantes-e-refugiados-encontram-apoio-na-arquidiocese-de-florianopolis

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

LUTA. Teu direito é lutar pelo Direito. Mas no dia em que encontrares o Direito em conflito com a justiça, luta pela justiça.
(Eduardo Couture)


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Projeto de Vida e Mudança Social
Fernando Anísio Batista

A sociedade atual apresenta diversos valores e contra-valores. Na verdade existe uma grande confusão nestas definições, pois os contra-valores muitas vezes são apresentados como valores supremos, como é o caso dos programas de televisão. Por isso, para manter uma ética pessoal e nutrir valores autênticos, as pessoas devem ter convicção em seus ideais e buscá-los constantemente.

Uma forma inteligente e criativa de manter-se firme na busca da integridade pessoal é construir um projeto de vida, onde a pessoa a partir de sua história de vida faz uma projeção para o futuro, incluindo diversas dimensões da vida, como: saúde, educação, moradia, família, profissão e atuação social.

Essa ideia inicialmente parece estranha, pois não fomos orientados desde a infância para isso. Ao contrário, quando criança sempre nos fizeram aquela pergunta que nos pressiona e aprisiona:  “o que você quer ser quando crescer?”. Sufocando um leque de possibilidades que podem surgir ainda na infância. No entanto, a falta de um projeto de vida trás um grande vazio no sentido da vida, pois não se tem claro quem sou e onde quero chegar.

Na busca de ampliar o sentido da vida, deve-se incluir um elemento central para a realização pessoal e a conquista da felicidade, que é a solidariedade. Quando nos abrimos para pensar também nos outros, saímos do individualismo que estamos “condicionados” a partir da dinâmica da sociedade contemporânea, encontrando um novo sentido para a vida.

Para incluir essa dimensão no projeto de vida, deve-se responder essa pergunta: como posso contribuir para a melhoria da comunidade onde vivo? A resposta trará elementos a partir da história e experiência de vida de cada pessoa. Contudo, ela deve contemplar a integração com outros grupos que buscam a mudança da sociedade, da comunidade e de pessoas, como é o caso das associações de moradores, igrejas, instituições de ensino e outros grupos ativos de mudanças sociais.

Muitas pessoas atuam nesta perspectiva, atuando efetivamente nos diversos grupos, movimentos, pastorais e organizações sociais da comunidade. Essas pessoas geralmente buscam o desenvolvimento das comunidades onde moram, primando pela qualidade de vida, justiça social e organização comunitária. Elas fortalecem o sentido de pertencimento a uma comunidade, a cidade e ao país, rompendo com a fragmentação das organizações sociais e com o individualismo.


Sugerimos que cada pessoa faça o exercício de avaliar sua dinâmica de vida e perceber quais são as lacunas existentes. Caso a participação social seja uma lacuna, procure saber quais são as grandes necessidades existentes ao seu redor, porém, juntamente com seu grupo procure perceber também quais são as possibilidades que permitem maior participação e melhoria de vida para todos.

* Artigo escrito em 09/05/2011, sem nenhuma publicação.
AMOSAD: Uma Nova Diretoria, Maiores Desafios!

Fernando Anísio Batista
Presidente da AMOSAD

Esta edição do Jornal Passo a Passo inaugura a gestão da nova diretoria da AMOSAD. Estamos assumindo a associação com muita vontade de realizar ações que tornem nosso bairro um lugar cada vez melhor para viver. Estamos com uma direção renovada, com muitas pessoas novas, com novas ideias, com ânimo novo, que aceitaram compor a Diretoria e o Conselho Fiscal pela primeira vez. Nossa metodologia de trabalho será a gestão compartilhada, com o planejamento participativo, pois sabemos que sozinhos não chegaremos muito longe, que precisamos do apoio, incentivo e dedicação de toda comunidade para alcançar nossos objetivos. A diretoria é nova, no entanto, os desafios são os mesmos. Ou melhor, os desafios são cada vez maiores.

Quando minha família veio para o bairro, há 16 anos, no nosso loteamento não existiam ruas calçadas, rede pluvial, comércio, prédios, etc. Em pouco mais de uma década nosso bairro cresceu mais de quatro vezes de tamanho e de população. E continua crescendo!

Na primeira reunião da nova diretoria, levantamos 15 propostas de ação para a AMOSAD. Destas elencamos as principais ações onde devemos focar nossos esforços no primeiro período da nossa gestão. Foi unânime na diretoria que necessitamos de uma área de lazer no bairro para nossas crianças e famílias. Atualmente as áreas de lazer que temos são utilizadas de forma restrita, não atendendo a toda comunidade.

Desta forma, nossa ação Nº 1 será lutar por um espaço público de lazer para toda comunidade. Queremos uma praça, onde as crianças poderão brincar, onde os adultos poderão desenvolver atividades físicas e onde poderemos realizar eventos de integração da comunidade.

Convidamos você para juntar-se a nós nesta luta em favor da comunidade. Juntos conquistaremos uma área de lazer no nosso bairro.

*Artigo publicado no Jornal Passo a Passo da AMOSAD edição de julho de 2010


TRABALHO: A ARTE DA TRANSFORMAÇÃO*
Fernando Anísio Batista

O trabalho ocupa um lugar central na vida das pessoas. Por isso, é importante dar novos significados para suas relações cotidianas, a fim de considerar que o trabalho pode ser um instrumento primordial de transformação social. As pessoas passam em média um terço de suas vidas no trabalho, o que constitui uma possibilidade infinita de contribuir para a construção de um mundo melhor.
Para isso, é necessário que o trabalhador alimente alguns valores que muitas vezes o próprio local de trabalho não proporciona. A sugestão é que cada trabalhador/a também seja um/a agente transformador/a, que esteja nutrida com uma ética pessoal que envolva as dimensões pessoal, social, econômica e ecológica.
Na dimensão pessoal e social é importante considerar que o local de trabalho é lugar de construir relações solidárias. O sistema capitalista impõe uma relação de competição entre todos/as, atingindo até os próprios companheiros de trabalho. O trabalhador, muitas vezes  com medo de perder o emprego busca ser mais “competitivo” até com seus pares. Neste sentido, vale o ditado “antes ele/a do que eu”, fortalecendo assim uma visão utilitarista das relações e o esvaziamento do sentido de solidariedade e companheirismo.
A sociedade atual vivencia a revolução tecnológica ou revolução informacional. Essa revolução tem mudado consideravelmente a dinâmica de toda sociedade, principalmente o mundo do trabalho. As pessoas precisam se adaptar a essa nova realidade e incorporar novas formas de relacionamento, onde muitas vezes as relações de trabalho são intermediadas por máquinas ou computadores.
Nessa nova realidade o trabalho é cada vez mais complexo. Da mesma forma que é complexo entender como funciona o trabalho em diferentes setores. Muitas máquinas substituíram o trabalho humano e a operação de máquinas é função diária de milhões de trabalhadores/as. Com isso o mundo do trabalho tem passado por diversas mudanças, onde palavras como desemprego, desregulação, flexibilização, terceirização e precarização faz parte do cotidiano da maioria dos/as trabalhadores/as.
Por isso, a valorização do trabalhador/a é fundamental para a ampliação do sentido de comprometimento da função desenvolvida. É comum encontrarmos trabalhadores/as estressados/as, que ficam doentes por causa do trabalho. Este sintoma é resultado de uma relação vertical, entre o/a superior/a e o subordinado/a, onde o produto é mais importante do que a pessoa que produz. É preciso construiu uma nova relação de trabalho que supere a visão meramente econômica.
O trabalho tem se tornando uma ameaça ao meio ambiente, tanto do ponto de vista da produção quanto do consumo. No processo de produção são diversos produtos nocivos a vida são lançados diariamente no meio ambiente. No consumo existe um processo desenfreado sem medir as conseqüências e os limites do nosso planeta.
·       É possível realizar pequenas e grandes atitudes no ambiente de trabalho de proteção da natureza, vejamos:
·       Não deixe luzes acesas sem necessidade;
·       Desligue sempre os aparelhos que não estiverem sendo utilizados;
·       Economizar água da torneira;
·       Folhas de papel podem ser usados nos dois lados;
·       Objetos devem ser utilizados até o fim de sua vida útil;

No mês do trabalhador, convidamos a todos/as a buscarem novos significados do seu papel enquanto transformador da realidade em que vivem. Feliz Dia do Trabalhador.
* Publicado no site da AMOSAD (www.amosad.org.br) em maio de 2011 
Natal: Consumir ou Celebrar?
Fernando Anísio Batista

O que você fará na véspera e no dia de natal? Já sei! Preparará um grande banquete. Trocará presentes com seus entes queridos. Festejará.
Quem você encontrará nas comemorações do natal? Já sei! O papai Noel. Familiares e amigos com quem passará momentos agradáveis. Crianças pobres que receberão brinquedos.
Como você comemorará o natal neste ano? Consumindo ou celebrando?
Infelizmente o ato de presentear e consumir no natal tem tornado-se o centro das atenções. O menino Jesus tem perdido cada vez mais seu espaço na celebração do seu aniversário. É como fossemos a um aniversário sem saber quem é o aniversariante, então, sem saber o que fazer, é distribuído os presentes.
Na procura de um/a culpado/a, podemos dizer que a culpa é dos reis magos que presentearam Jesus ainda na manjedoura. No entanto, a motivação originária dos reis magos estava completamente revestida de simbologia, muito diferente da motivação atual levada por um consumismo irracional. Os presentes ofertados: ouro, incenso e mirra, tinham cada um significado próprio, conforme vejamos:
- O ouro era um presente para um rei;
- o olíbano (incenso) para um sacerdote, representando a espiritualidade;
- A mirra, para um profeta (a mirra era usada para embalsamar corpos e, simbolicamente, representava a imortalidade).
Qual é a motivação que temos para presentear no natal? É a mesma motivação dos reis magos?
Somos levados a consumir por consumir, sem reflexão e sem critérios. Somos levados por uma grande onda (capitalista) que diz que quanto mais consumirmos melhor e mais felizes seremos. Será este o verdadeiro sentido do natal? O que você fará neste natal celebrar o nascimento de Jesus ou consumir?

* Artigo publicado no Jornal da Arquidiocese edição de dezembro de 2014 (pg. 05) 
Cristão e Política: é possível uma relação?

Fernando Anísio Batista

NÃO! Não é possível um discípulo e missionário de cristo se envolver com a política da forma que ela está concebida nos dias atuais. As manifestações de junho e julho de 2013 revelaram o desejo de milhares de brasileiros/as por mais investimentos na saúde, transporte público, na educação, entre outros. Mostraram que existe um abismo entre o que a população quer com a  atuação política no país. Atualmente os políticos que são os representantes do povo ao entrar “nos palácios imperiais” esquecem que verdadeira missão na política é promover o bem comum para a “polis”, que dizer para todos os cidadãos.

O modelo político atual é baseado na troca de favores, numa atitude totalmente clientelista que só visam o benefício pessoal dos envolvidos, criando em todas as esferas da política brasileira um ciclo vicioso do “querer se dar bem”, que abrem grandes chagas impedindo uma ação em favor do bem comum, principalmente no atendimento aos excluídos/as. No geral, são pequenos grupos que se favorecem (geralmente grandes empresários), que utilizam as campanhas eleitorais para deixar cair as migalhas de seus banquetes para os Lázaros da vida (Cf. Lc 16, 19-21).

Sendo assim, não é possível um cristão comprometido participar da política e reproduzir a forma como ela está sendo conduzida no Brasil.

Mas por outro lado...

SIM! É possível e necessário ter cristãos comprometidos com a vida participando da política, somente assim será semeando trigo no meio do joio (Cf. Mt 13,24-30). Para isso, é necessário ser um/a verdadeiro/a discípulo/a e missionário/a de Jesus, com atitudes proféticas de denuncia e também de anuncio. Negado os esquemas e sistemas consolidados na política que trazem corrupção, negação de direitos, enriquecimento ilícito. Lutando em favor da vida, principalmente onde ela é negada (Cf. Jo 10,10).

Quantos/as candidatos/as que você conhece que tem atitudes assim?

Pense nisso na hora de vota!

*Artigo publicado no Jornal da Arquidiocese edição de Setembro de 2014 (pg. 5)
Qual é a relação entre a CF 2015 e a catequese?*

Fernando Anísio Batista

A Campanha da Fraternidade de 2015 (CF 2015) nos convida a refletir sobre a relação entre a Igreja e a sociedade. Inicialmente seu tema já propõe a quebra de um paradigma do senso comum que diz que a Igreja não deve se envolver em assuntos sociais ou políticos, que sua missão é meramente a evangelização. Esse paradigma retém uma visão da propagação do evangelho afastado do mundo que vivemos, onde estabelece uma relação unilateral entre a pessoa e Deus, esquecendo-se da relação em comunidade e em sociedade, elementos que formam os três âmbitos da ação evangelizadora (pessoa, comunidade e sociedade).

A Igreja do Brasil com a CF neste tempo de quaresma, propício para reflexão e conversão, quer trazer presente as grandes decisões conciliares do Vaticano II (1962-1965) que propôs que a Igreja seja missionária, encarnada na vida do povo e com atenção especial aos pobres, atuando profeticamente na construção de uma sociedade justa e solidária.

A construção desta nova sociedade não se dará somente pelos doutores das leis, políticos ou grandes empresários, que estão atrelados ao dinheiro e ao poder. O próprio Jesus apresentou aos discípulos, e apresenta a cada um de nós, o verdadeiro itinerário necessário para as mudanças estruturais que a sociedade precisa, que se revela numa atitude de amor e compaixão aos irmãos/as expressa numa atitude de serviço e resgate da dignidade da pessoa humana como filho/a, imagem e semelhança de Deus: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos, aquele que serve a todos!” (Mc 9,35).

O cartaz da CF expressa a dimensão do serviço, onde o Papa coloca-se aos pés do próximo para lava-los, atitude que é a expressão de amor capaz de levar a pessoa a entregar sua vida pelo outro. Viver a dimensão do serviço é o primeiro passo para realizar muitas mudanças que a sociedade necessita. Essas mudanças serão possíveis de concretiza-las, trabalhando em conjunto Igreja e outras instituições de forma participativa, misericordiosa e samaritana, seguindo o próprio exemplo do Papa Francisco.


A catequese como espaço por excelência de formação da fé, não pode estar descolada da dimensão da vida. A formação desenvolvida pela catequese deve auxiliar os catequizandos a descobrirem qual deverá ser seu papel na sociedade, enquanto cidadãos, construtores de novos valores, necessários para contribuir para fortalecer o papel da Igreja na mudança da sociedade. Desta forma, a catequese estará contribuindo com a formação de novos cidadãos que atendem ao chamado de serem “Sal da Terra e Luz para o mundo” (Mt 5-13-16). 

* Artigo publicado no jornal Missão Jovem edição de março de 2015
2015: um ano dedicado a paz*
Fernando Anísio Batista

Durante a 52ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) foi aprovada, por unanimidade, a realização do Ano da Paz, que teve início no primeiro domingo do advento (30 de novembro de 2014) e se encerrará no natal de 2015.

Entre diversos elementos que justificam a CNBB tomar tal decisão, como o aumento da violência em todos os níveis nas pequenas e grandes cidades brasileiras, as atitudes do Papa Francisco na promoção da paz tornaram-se inspiração. Atitudes como a realização da vigília pela paz na Praça São Pedro no dia 07 de setembro de 2013, a oração conjunta com o presidente de Israel, a autoridade palestina e o patriarca de Constantenopla no dia 08 de junho de 2014, a oração na Mesquita em Istambul em sua viagem feita a Turquia nos dias 28 a 30 de novembro.

Na abertura do ano da paz, o secretário-geral da CNBB, Dom Leonardo Steiner, explicou que o ano do país pode auxiliar na reflexão dobre os motivos que levam a violência: “Um ano da paz pode nos ajudar a refletir sobre o porquê da violência e a necessidade da paz. Mas também busca, junto as nossas comunidades, momentos onde as pessoas possam expressar que desejam viver em harmonia e fraternidade”.

O Brasil é um dos países mais violentos do mundo, com alta taxa de homicídios, suicídios, acidentes automobilísticos, sem contar outras expressões da violência como a violência moral, sexual e social. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil ocupa a 11ª maior taxa de homicídios do mundo.


Não existe apenas uma causa que gera violência. São várias situações, que impulsionam a pessoa a ter uma atitude violenta. No entanto, a falta de uma cultura da paz é o elemento central, gerador de toda violência.

Na Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, o Papa Francisco ressalta que enquanto não se eliminarem a exclusão social e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos, será impossível erradicar a violência que, venenosamente, consome vidas, mata sonhos e atrasa avanços.

O ano da paz pode ser vivido e celebrado de diferentes formas nas paróquias, comunidades e grupos. Não se trata de grandes eventos, mas reflexões profundas em seminários, debates, caminhadas e encontros, que busquem a reflexão voltada na disseminação de uma cultura da paz, contra as diversas formas de violência, em seus diferentes graus e estágios.


*Artigo publicado no Jornal da Arquidiocese edição de fevereiro de 2015
Migrantes e Refugiados em Florianópolis

Fernando Anísio Batista*

O ano de 2014 foi marcado por um aumento significativo da presença de migrantes e refugiados em Florianópolis. São pessoas vindas de diferentes países, motivadas por diferentes razões, mas com um objetivo único: buscar melhores condições de vida. Neste cenário há uma predominância aqui de refugiados da Síria, haitianos e muitos migrantes dos países latinos americanos.

A presença destes imigrantes e refugiados em nossa cidade, Estado e país provoca em toda sociedade, mas principalmente no poder público, indagações de como agir neste caso. Como atendê-los/as de forma adequada? O que eles querem? Não se trata de grandes exigências, no geral é: trabalho digno e acesso aos serviços públicos básicos (saúde, educação, regulamentação da sua permanência, etc.).
No entanto, como em outras partes do Brasil, o município de Florianópolis não está suficientemente preparado para tratar deste novo areópago (migrações).

Em abril de 2014, por iniciativa da Arquidiocese de Florianópolis criou-se um Grupo de Apoio aos Migrantes e Refugiados, que atualmente congrega mais de 15 instituições que atuam diretamente com migrações, entre elas a UFSC e UDESC. Como fruto deste grupo, realizou-se em 2014 um painel na UFSC e uma audiência pública na Câmara Municipal de Vereadores. E resultou concretamente na ampliação e articulação de instituições que atuam com migrantes, atendendo demandas específicas, como é o caso da língua portuguesa para estrangeiros.

A partir deste grupo, verificou-se a necessidade do poder público especializar-se nesta área, criando um comitê intersetorial sobre o tema (proposta da audiência pública), envolvendo diversas secretarias municipais a fim de atender cada vez melhor essa nova realidade. Para efetivar essa proposta, o Arcebispo de Florianópolis solicitou uma audiência com o prefeito municipal a qual foi desmarcada quatro vezes consecutivas, o que prejudicou o andamento de qualquer ação por parte da prefeitura.
Para o próximo ano o Grupo de Apoio já tem uma agenda de ações pré-definidas, inclusive com a realização de uma semana dos migrantes. Agora basta saber se o poder público municipal melhorará sua atuação neste sentido, ou continuará com ações desarticuladas e paliativas no atendimento aos migrantes e refugiados em Florianópolis.

O ano de 2014 foi marcado por um aumento significativo da presença de migrantes e refugiados em Florianópolis. São pessoas vindas de diferentes países, motivadas por diferentes razões, mas com um objetivo único: buscar melhores condições de vida. Neste cenário há uma predominância aqui de refugiados da Síria, haitianos e muitos migrantes dos países latinos americanos.

A presença destes imigrantes e refugiados em nossa cidade, Estado e país provoca em toda sociedade, mas principalmente no poder público, indagações de como agir neste caso. Como atendê-los/as de forma adequada? O que eles querem? Não se trata de grandes exigências, no geral é: trabalho digno e acesso aos serviços públicos básicos (saúde, educação, regulamentação da sua permanência, etc.).

No entanto, como em outras partes do Brasil, o município de Florianópolis não está suficientemente preparado para tratar deste novo areópago (migrações).

Em abril de 2014, por iniciativa da Arquidiocese de Florianópolis criou-se um Grupo de Apoio aos Migrantes e Refugiados, que atualmente congrega mais de 15 instituições que atuam diretamente com migrações, entre elas a UFSC e UDESC. Como fruto deste grupo, realizou-se em 2014 um painel na UFSC e uma audiência pública na Câmara Municipal de Vereadores. E resultou concretamente na ampliação e articulação de instituições que atuam com migrantes, atendendo demandas específicas, como é o caso da língua portuguesa para estrangeiros.

A partir deste grupo, verificou-se a necessidade do poder público especializar-se nesta área, criando um comitê intersetorial sobre o tema (proposta da audiência pública), envolvendo diversas secretarias municipais a fim de atender cada vez melhor essa nova realidade. Para efetivar essa proposta, o Arcebispo de Florianópolis solicitou uma audiência com o prefeito municipal a qual foi desmarcada quatro vezes consecutivas, o que prejudicou o andamento de qualquer ação por parte da prefeitura.
Para o próximo ano o Grupo de Apoio já tem uma agenda de ações pré-definidas, inclusive com a realização de uma semana dos migrantes. Agora basta saber se o poder público municipal melhorará sua atuação neste sentido, ou continuará com ações desarticuladas e paliativas no atendimento aos migrantes e refugiados em Florianópolis.


*Sociólogo e Secretário Executivo da Ação Social da Arquidiocese de Florianópolis
Artigo publicado no Jornal Notícias do Dia no dia 10/02/2015 e no Jornal da Arquidiocese de Florianópolis
edição de março de 2015