quarta-feira, 29 de abril de 2015

Arcebispo foi assinado quando presidia santa missa*


No dia 23 de maio de 2015, haverá a cerimônia de beatificação de Dom Oscar Romero, antigo arcebispo de El Salvador, que será presidida pelo cardeal Angelo Amato, prefeito da congregação para as causas dos santos (Santa Sé).
O Papa Francisco autorizou no dia 03 de fevereiro deste ano a publicação do decreto que reconhece o martírio de Dom Oscar Romero, que foi assinado no dia 24 de março de 1980, Domingo de Ramos, por um disparo de um atirador do exército salvadorenho, enquanto celebrava uma missa na capela do hospital da Divina Providência, na Colônia Miramonte, em San Salvador, capital salvadorenha. Neste decreto, Francisco também reconheceu o martírio de dois franciscanos polacos, Michele Tomaszek e Sbigneo Strzalkowski, e do sarcerdote italiano Alessandro Dordi, mortos no Peru, em 1991, pelo grupo de guerrilha ‘Sendero Luminoso’.

Breve histórico de Dom Oscar Romero
Oscar Armulfo Romero nasceu em 15 de agosto de 1917, em Ciudad Barrios, em El Salvador. Foi ordenado padre aos 25 anos e bispo aos 53 anos. Retornou a El Salvador, na função de pároco. Era um sacerdote generoso e atuante: visitava os doentes, lecionava religião nas escolas, foi capelão do presídio, os pobres e carentes faziam fila na porta de sua casa paroquial, pedindo e recebendo ajuda. Durante 26 anos, padre Oscar Romero conheceu a miséria profunda que assolava seu pequeno país.
Nomeado em 1977 arcebispo da capital, San Salvador, teve uma grande mudança de visão ao conhecer de perto os sofrimentos do povo e das pessoas que lutavam em defesa dos direitos humanos. Passou assim a denunciar corajosamente, em suas homilias dominicais, a repressão do regime militar e as atrocidades cometidas pelos esquadrões da morte, manifestando publicamente sua solidariedade com as vitimas da violência política.
Na homilia de 23 de março, o bispo se dirige explicitamente aos homens do Exército, da Guarda Nacional e da Polícia e afirma: “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral. Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cessem a repressão!” estas foram as últimas palavras registradas do bispo ao país.
No dia 24 de março de 1980, Dom Romero foi fuzilado, em meio aos doentes de câncer e enfermos, enquanto celebrava uma missa na capela do Hospital da Divina Providência, na capital de El Salvador, por um atirador de elite do exército salvadorenho, treinado na Escola das Américas. Estava em plena Eucaristia pedido “que este Corpo e este Sangue nos alimentem para entregarmos também o nosso corpo...” quando caiu baleado, detrás do altar, aos pés do grande Crucifixo.

Sua morte provocou uma onda de protestos em todo o mundo e pressões internacionais por reformas em El Salvador. Mártir da Igreja pela Justiça, Romero é considerado “santo” pelo povo salvadorenho e pelas comunidades eclesiais de base de toda a América Latina que atuam ao lado dos mais desfavorecidos.

* Artigo publicado no jornal da Arquidiocese de Florianópolis edição de maio de 2015.
"Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim
 decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar,
 desistir ou lutar; porque descobri, no
 caminho incerto da vida, que o mais 
importante é o decidir".

Cora Coralina


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Por uma Igreja da porta para fora
Fernando Anísio Batista*

A Igreja Católica vive um momento muito significativo em sua história. As atitudes do Papa Francisco sugerem que a Igreja se abra para dialogar com a sociedade. Em momento de crise mundial o esperado das instituições é justamente o contrário: fechar-se e proteger-se. No entanto, o Papa Francisco como um grande líder mundial está promovendo a cultura do encontro, ao invés da cultura do protecionismo e do isolamento.
Na Exortação Apostólica Evangelli Gaudium o Papa convida para vivência de uma Igreja em saída: “saímos, saímos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49).
A Igreja do Brasil tem atendido ao convite do santo padre e a Campanha da Fraternidade deste ano lança o desafio de refletir sobre a relação entre a Igreja e a sociedade, no sentido de perceber de que forma a Igreja influencia e é influenciada pela sociedade, uma vez que é parte integrante dela. Esse tema já propõe a quebra de um paradigma do senso comum que diz que a Igreja não deve se envolver em assuntos sociais ou políticos, que sua missão é meramente a evangelização. Esse paradigma retém uma visão da propagação do evangelho afastado do mundo que vivemos, onde estabelece uma relação unilateral entre a pessoa e Deus, esquecendo-se da relação em comunidade e em sociedade, elementos que formam os três âmbitos da ação evangelizadora (pessoa, comunidade e sociedade).
O anúncio do evangelho da porta para fora da Igreja não é tarefa fácil e muitas vezes desperta espiritualidade de conflito, muito própria daqueles/as que desejam arduamente torna-se discípulos/as e missionários/as de Jesus. Viver essa espiritualidade significa a vivência profética do anuncio da Boa Nova, mas também a denuncia quando há injustiça.

Hoje na Igreja da Arquidiocesana há muitas pessoas, movimentos e pastorais que vivenciam essa experiência de viver a Igreja também da porta para fora, basta conhecer todo trabalho que é realizado nas periferias, nos hospitais, presídios, com moradores de rua, nos conselhos paritários, com dependentes químicos. Mas ainda há um chamado! Não podemos nos acomodar com o que já existe. Há muito a ser feito e somente as pessoas de boa vontade contribuirão com um mundo mais justo e solidário.

Artigo publicado no Jornal da Arquidiocese edição Abril de 2015,

terça-feira, 10 de março de 2015

Migrantes e refugiados encontram apoio na Arquidiocese de Florianópolis

Foto de: Pastoral do Migrante
Casal de migrantes
Casal de migrantes recebe atendimento da Pastoral do Migrante de Florianópolis (SC).

O Estado de Santa Catarina, em especial a capital Florianópolis, registrou em 2014 aumento de refugiados da Síria, haitianos e muitos migrantes dos países latino-americanos, em busca de trabalho e acesso aos serviços públicos básicos.
Para atender melhor esta população, a Arquidiocese de Florianópolis criou há quase um ano um Grupo de Apoio aos Migrantes e Refugiados que congrega mais de 15 instituições, atendendo demandas específicas, como o ensino da língua portuguesa para estrangeiros.
Fernando Anísio Batista, secretário executivo da Ação Social Arquidiocesana e cientista político, explicou ao portal A12 a real condição dos migrantes, a atuação do Grupo de Apoio e a falta de políticas públicas que ofereçam “resultado satisfatório” na região. Confira: 
A12 - Como é medido o crescimento da população migrante em Florianópolis? Existem dados oficiais?
Fernando Anísio Batista - Não existem cadastros oficiais da chegada destes migrantes. O que existe e é muito perceptível é o aumento da procura espontânea pelas instituições que atendem essas pessoas, bem como aos órgãos municipais. O significativo aumento da presença dos imigrantes é reflexo de um novo ciclo migratório presente no mundo e que tem o Brasil como um dos seus destinos, considerando a relevante posição econômica do país (quinta maior economia mundial).
A12 - Por que esta região do Brasil tem sido tão amplamente escolhida pelos migrantes? De quais origens?
Foto de: Reprodução/ UFFS
Haitianos em Universidade de SC
A Universidade Federal da Fronteira do Sul oferece ensino 
superior a 39 imigrantes haitianos por meio do programa 
ProHaiti. 
Fernando Anísio Batista - A região sul é um dos destinos escolhidos pelos migrantes de diversos países, principalmente por suas características econômicas. Em especial, Santa Catarina ocupa relevantes posições no cenário industrial brasileiro, com grande potencial no setor têxtil, metal-mecânica, pecuária e extrativista (minérios). Uma das grandes buscas dos migrantes é por oportunidades de empregos e o Estado de Santa Catarina tem baixos índices de desempregos e grande procura por mão de obra primária, principalmente na construção civil e nos frigoríficos, onde estes migrantes têm se colocado profissionalmente.
Temos a presença de muitos sul-americanos: argentinos, uruguaios, bolivianos. Recentemente, aumentou significativamente a presença de haitianos e de ganeses, bem como de sírios, mas em quantidade menor que os de outras nacionalidades.
A12 - Como funciona o Grupo de Apoio aos Migrantes e Refugiados? Em que segmento o Grupo mais atua (atendimento emergencial dos atendidos ou na cobrança de responsabilidades dos órgãos públicos)?
Fernando Anísio Batista - O grupo de apoio surgiu de forma espontânea a partir da necessidade de uma atuação mais organizada na assistência aos imigrantes e refugiados presentes em Florianópolis. Inicialmente foi realizado uma pequena reunião de articulação destas entidades que foi se ampliando conforme foi se tornando mais conhecido. Atualmente, o grupo de apoio realiza reuniões semanais, mas organizou grupos de trabalho que se encontram com mais regularidade para atender assuntos específicos.
Como o atendimento emergencial é realizado diretamente pelas entidades, o grupo de apoio atua mais como um espaço de articulação social política, com o objetivo de fortalecer o trabalho de cada instituição que o congrega, bem como de ampliar a rede de atendimento (público e privada) aos migrantes e refugiados.
A12 - Os migrantes e refugiados têm conseguido se instalar e permanecer na cidade? Onde e como?
Fernando Anísio Batista - Quando chegam em Florianópolis e em outras cidades do Estado, geralmente já têm contato com alguém que dá o apoio nos primeiros dias. Buscam emprego em empresas que têm se colocado à disposição para atendê-los e aos poucos vão legalizando sua situação. Existem muitas empresas pré-dispostas a empregar migrantes, principalmente os haitianos.
Os locais de moradia são os mais diversos, no geral, são pequenos imóveis divididos para vários imigrantes. Hoje em Florianópolis e em Santa Catarina não existe nenhum centro de atendimento aos imigrantes que possa suprir de forma momentânea a necessidade de moradia. 
A12 - Quais são as ações ou políticas que melhor apresentam resultados?
Fernando Anísio Batista - Existem poucas políticas voltadas para o atendimento direto aos imigrantes. Geralmente as políticas de atendimento a população brasileira são as mesmas que beneficiam os imigrantes. Neste momento, não é possível mencionar alguma que dê um resultado satisfatório, por não existir alguma com um atendimento específico a essa realidade. O que existe em Florianópolis e em outras partes do país é um esforço extraordinário de pessoas e entidades que buscam de forma solidária atender essa nova realidade, buscando olhá-los como uma situação excepcional a partir de suas necessidades que são as mais variadas possíveis: casa, trabalho, documentação, acolhimento, dialeto etc.



Entrevista publicada no portal A12 no dia 09/03/2014, no seguinte endereço:
http://www.a12.com/noticias/detalhes/migrantes-e-refugiados-encontram-apoio-na-arquidiocese-de-florianopolis

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

LUTA. Teu direito é lutar pelo Direito. Mas no dia em que encontrares o Direito em conflito com a justiça, luta pela justiça.
(Eduardo Couture)


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Projeto de Vida e Mudança Social
Fernando Anísio Batista

A sociedade atual apresenta diversos valores e contra-valores. Na verdade existe uma grande confusão nestas definições, pois os contra-valores muitas vezes são apresentados como valores supremos, como é o caso dos programas de televisão. Por isso, para manter uma ética pessoal e nutrir valores autênticos, as pessoas devem ter convicção em seus ideais e buscá-los constantemente.

Uma forma inteligente e criativa de manter-se firme na busca da integridade pessoal é construir um projeto de vida, onde a pessoa a partir de sua história de vida faz uma projeção para o futuro, incluindo diversas dimensões da vida, como: saúde, educação, moradia, família, profissão e atuação social.

Essa ideia inicialmente parece estranha, pois não fomos orientados desde a infância para isso. Ao contrário, quando criança sempre nos fizeram aquela pergunta que nos pressiona e aprisiona:  “o que você quer ser quando crescer?”. Sufocando um leque de possibilidades que podem surgir ainda na infância. No entanto, a falta de um projeto de vida trás um grande vazio no sentido da vida, pois não se tem claro quem sou e onde quero chegar.

Na busca de ampliar o sentido da vida, deve-se incluir um elemento central para a realização pessoal e a conquista da felicidade, que é a solidariedade. Quando nos abrimos para pensar também nos outros, saímos do individualismo que estamos “condicionados” a partir da dinâmica da sociedade contemporânea, encontrando um novo sentido para a vida.

Para incluir essa dimensão no projeto de vida, deve-se responder essa pergunta: como posso contribuir para a melhoria da comunidade onde vivo? A resposta trará elementos a partir da história e experiência de vida de cada pessoa. Contudo, ela deve contemplar a integração com outros grupos que buscam a mudança da sociedade, da comunidade e de pessoas, como é o caso das associações de moradores, igrejas, instituições de ensino e outros grupos ativos de mudanças sociais.

Muitas pessoas atuam nesta perspectiva, atuando efetivamente nos diversos grupos, movimentos, pastorais e organizações sociais da comunidade. Essas pessoas geralmente buscam o desenvolvimento das comunidades onde moram, primando pela qualidade de vida, justiça social e organização comunitária. Elas fortalecem o sentido de pertencimento a uma comunidade, a cidade e ao país, rompendo com a fragmentação das organizações sociais e com o individualismo.


Sugerimos que cada pessoa faça o exercício de avaliar sua dinâmica de vida e perceber quais são as lacunas existentes. Caso a participação social seja uma lacuna, procure saber quais são as grandes necessidades existentes ao seu redor, porém, juntamente com seu grupo procure perceber também quais são as possibilidades que permitem maior participação e melhoria de vida para todos.

* Artigo escrito em 09/05/2011, sem nenhuma publicação.
AMOSAD: Uma Nova Diretoria, Maiores Desafios!

Fernando Anísio Batista
Presidente da AMOSAD

Esta edição do Jornal Passo a Passo inaugura a gestão da nova diretoria da AMOSAD. Estamos assumindo a associação com muita vontade de realizar ações que tornem nosso bairro um lugar cada vez melhor para viver. Estamos com uma direção renovada, com muitas pessoas novas, com novas ideias, com ânimo novo, que aceitaram compor a Diretoria e o Conselho Fiscal pela primeira vez. Nossa metodologia de trabalho será a gestão compartilhada, com o planejamento participativo, pois sabemos que sozinhos não chegaremos muito longe, que precisamos do apoio, incentivo e dedicação de toda comunidade para alcançar nossos objetivos. A diretoria é nova, no entanto, os desafios são os mesmos. Ou melhor, os desafios são cada vez maiores.

Quando minha família veio para o bairro, há 16 anos, no nosso loteamento não existiam ruas calçadas, rede pluvial, comércio, prédios, etc. Em pouco mais de uma década nosso bairro cresceu mais de quatro vezes de tamanho e de população. E continua crescendo!

Na primeira reunião da nova diretoria, levantamos 15 propostas de ação para a AMOSAD. Destas elencamos as principais ações onde devemos focar nossos esforços no primeiro período da nossa gestão. Foi unânime na diretoria que necessitamos de uma área de lazer no bairro para nossas crianças e famílias. Atualmente as áreas de lazer que temos são utilizadas de forma restrita, não atendendo a toda comunidade.

Desta forma, nossa ação Nº 1 será lutar por um espaço público de lazer para toda comunidade. Queremos uma praça, onde as crianças poderão brincar, onde os adultos poderão desenvolver atividades físicas e onde poderemos realizar eventos de integração da comunidade.

Convidamos você para juntar-se a nós nesta luta em favor da comunidade. Juntos conquistaremos uma área de lazer no nosso bairro.

*Artigo publicado no Jornal Passo a Passo da AMOSAD edição de julho de 2010